
Retração gengival: por que acontece e o que dá para fazer
10 de julho de 2026 5 min de leitura Revisado por Dr. Eduardo Emi
A raiz exposta incomoda pelo frio, acumula mais placa e alonga o dente visualmente. Mas antes de recobrir, é preciso descobrir por que a gengiva recuou — porque, sem remover a causa, ela recua de novo.
O que exatamente está exposto
A coroa do dente é revestida por esmalte, o tecido mais duro do corpo. A raiz, não: ela é coberta por cemento, uma camada fina e muito menos resistente, que normalmente fica protegida pela gengiva e pelo osso.
Quando a gengiva recua, essa raiz fica exposta ao meio bucal. E ela não foi feita para isso: é mais sensível a estímulos térmicos, desgasta mais rápido, retém mais biofilme e é bem mais suscetível a lesão de superfície.
Some-se o efeito visual. O dente parece mais longo, e em regiões anteriores isso costuma ser a queixa que traz o paciente à consulta, mesmo quando a sensibilidade ainda é discreta.
Escovação traumática: a causa mais comum em quem cuida bem
É contraintuitivo, mas boa parte das retrações aparece em pessoas com higiene excelente. O problema não é escovar: é como se escova.
Escova de cerdas duras, pressão excessiva e movimento de vaivém horizontal produzem um trauma repetido na margem da gengiva. Ao longo de anos, esse trauma empurra o tecido para baixo. Costuma aparecer primeiro do lado oposto à mão dominante, onde a pressão é maior.
A correção é técnica, não esforço. Escova macia, pressão leve o suficiente para as cerdas não se dobrarem, e movimento suave na direção da gengiva para o dente. Escova elétrica com sensor de pressão ajuda quem tem dificuldade em dosar.
Doença periodontal e as outras causas
Na periodontite, a retração acompanha a perda de osso: quando o osso de suporte é destruído, a gengiva o segue. Aqui a retração é consequência, e tratar só o tecido mole sem controlar a doença não faz sentido.
Trauma de oclusão é outra origem: dentes que recebem carga excessiva ou em direção inadequada podem apresentar retração localizada. Bruxismo entra nessa conta.
Há ainda fatores anatômicos — gengiva naturalmente fina, dente posicionado para fora do osso, freio labial com inserção alta que traciona a margem — e movimentação ortodôntica que levou a raiz para além da tábua óssea. Cada uma dessas causas pede uma conduta diferente, e é por isso que o diagnóstico vem antes.
Sensibilidade: o que resolve no curto prazo
A sensibilidade da raiz exposta vem dos túbulos dentinários abertos, que transmitem estímulos térmicos até a polpa. Dessensibilizantes de aplicação profissional e cremes dentais específicos atuam obstruindo esses túbulos.
Funciona, mas é alívio de sintoma. A raiz continua exposta, continua mais suscetível a desgaste e continua acumulando biofilme com mais facilidade.
Vale como medida imediata e como ponte enquanto se investiga a causa. Não vale como solução definitiva, e um profissional que oferece só isso diante de uma retração progressiva está tratando o incômodo, não o problema.
Quando o enxerto gengival é indicado
O recobrimento cirúrgico é indicado quando há sensibilidade que não responde a medidas conservadoras, quando a exposição compromete a estética, quando há risco de progressão por espessura muito fina de tecido, ou quando a região não permite higiene adequada.
O tecido pode vir do palato do próprio paciente ou de matriz apropriada, conforme o caso. A cirurgia é feita com magnificação, porque a sutura em tecido fino exige precisão que o olho nu não alcança com a mesma consistência.
O resultado depende muito do formato do defeito. Retrações com osso interproximal preservado têm prognóstico de recobrimento melhor do que aquelas em que o osso entre os dentes também foi perdido — e isso precisa ser dito antes, não depois.
Por que a causa vem antes da cirurgia
Um enxerto instalado em um paciente que continua escovando com força volta a retrair. O mesmo vale para quem tem periodontite não tratada ou bruxismo sem proteção.
Por isso o protocolo começa pela identificação e remoção da causa, segue com um período de observação para confirmar que a retração estabilizou, e só então considera o recobrimento.
Não é burocracia nem enrolação: é o que faz a diferença entre uma cirurgia que resolve e uma cirurgia que precisa ser refeita. Se alguém propõe enxerto na primeira consulta, sem investigar por que a gengiva recuou, vale perguntar o porquê.
Como é o pós-operatório do enxerto gengival
Quando o tecido vem do palato, existem dois sítios cirúrgicos: a área que recebeu o enxerto e a área doadora. Costuma ser a doadora a que mais incomoda nos primeiros dias — é uma ferida aberta em uma região que a língua encontra o tempo todo.
Uma placa de proteção sobre o palato costuma ser confeccionada para esse período. Ela protege a área doadora do contato com alimento e com a língua, e reduz bastante o desconforto.
Na área enxertada, a regra é não mexer. Não escovar a região pelo período determinado, não puxar o lábio para inspecionar, não usar fio ali. A higiene daquele local é feita com bochecho de solução prescrita ou com aplicação delicada de gaze, conforme a orientação recebida.
A alimentação deve ser fria e macia nos primeiros dias, e a mastigação do lado oposto. O tecido enxertado leva semanas para se integrar e ganhar cor semelhante à da gengiva vizinha — o aspecto esbranquiçado ou avermelhado das primeiras semanas é esperado.
Como saber se a retração está progredindo
Retração estável e retração progressiva pedem condutas diferentes, e distinguir as duas exige medida, não impressão.
O acompanhamento é feito com registro fotográfico padronizado e com medição da altura de tecido exposto em pontos de referência fixos. Comparando ao longo de meses, dá para dizer se aquilo parou ou continua andando.
Sem esse registro, a percepção engana nos dois sentidos. Muita gente jura que a gengiva está "descendo todo mês" quando ela está estável há anos; outras não percebem uma progressão lenta até a raiz estar bastante exposta.
Se a medição mostra estabilidade e não há sensibilidade nem queixa estética, o acompanhamento pode ser a conduta correta — cirurgia não é obrigatória diante de toda retração. Se mostra progressão, aí a causa precisa ser reavaliada antes de qualquer recobrimento.
Perguntas frequentes
- A gengiva volta a crescer sozinha?
- Não. O tecido gengival não retorna espontaneamente à posição original — o que se consegue é interromper a progressão e, quando indicado, recobrir cirurgicamente.
- Retração sempre precisa de cirurgia?
- Não. Muitos casos estáveis, sem sensibilidade importante e sem prejuízo estético, são apenas acompanhados, com controle da causa e da higiene.
- Escova elétrica causa retração?
- Usada corretamente, não. Modelos com sensor de pressão até ajudam quem tende a escovar com força. O problema é a pressão excessiva, com qualquer escova.
- O enxerto recobre a raiz por completo?
- Depende do formato do defeito e da condição do osso entre os dentes. Recobrimento total é possível em algumas situações e parcial em outras — a expectativa deve ser definida antes da cirurgia.
- Creme dental para sensibilidade resolve?
- Alivia o sintoma ao obstruir os túbulos dentinários, e costuma levar algumas semanas de uso contínuo para fazer efeito. Não trata a exposição da raiz nem impede a progressão.
- Retração em um dente só é preocupante?
- Retração localizada costuma ter causa localizada — trauma de escovação naquele ponto, posição do dente fora do osso ou freio com inserção alta. Identificar qual é define se cabe acompanhar ou intervir.
Este assunto faz parte da nossa especialidade de periodontia e gengiva. Se quiser avaliar o seu caso, fale com a clínica.








